
A redução do desemprego e a diminuição da fome são citadas como pontos de avanço no relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades. O estudo, no entanto, escancara o aumento das desigualdades, com o rendimento médio do 1% mais rico 31,5 vezes maior do que o dos mais pobres.
Análise mostra que 71% dos indicadores apresentaram melhora no ano passado. A pesquisa indica que 16% dos dados pioraram e os demais 13% seguiram estáveis. Os avanços estão concentrados principalmente no mercado de trabalho, na renda média, na redução da pobreza e na segurança alimentar. Na contramão, a distância entre os mais ricos e os mais pobres aumentou.
Rendimento médio real dos brasileiros aumentou para R$ 3.376 em 2025. A alta de 5,3% em relação a 2024 ainda esconde a distribuição desigual dos ganhos. Segundo o relatório, o rendimento médio dos homens cresceu 5,8%, acima da média nacional (5,3%) e do crescimento entre as mulheres (4,8%), com os ganhos delas equivalentes a 72,2% do rendimento masculino. O cenário é replicado em todas as regiões do Brasil.
Ganho médio das mulheres negras tem mais baixo patamar do mercado de trabalho. O valor equivalente a R$ 2.184 é 57,8% inferior ao dos homens não negros (R$ 5.172). “Esse dado confirma, mais uma vez, que têm consolidado as desigualdades históricas entre as raças no país”, diz o relatório elaborado em parceria com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).
Parcela de 1% dos mais ricos (2,1 milhões) tem renda 31,5 vezes superior à dos 50% mais pobres (106,4 milhões). O relatório aponta que, apesar de o indicador ser inferior ao observado em 2022, o percentual permanece em patamar relativamente estável. Segundo o estudo, o aumento de 1,3 ponto percentual em relação a 2024 evidencia que a distribuição da riqueza não foi alterada.
Maior discrepância foi notada na região Sudeste, onde a renda dos 1% mais ricos foi 30,3 vezes maior que a dos 50% mais pobres. Por outro lado, a menor razão foi registrada no Sul (21,8). Na comparação com 2024, o maior aumento da desigualdade ocorreu no Centro-Oeste, onde a razão passou de 25 para 29,3 vezes. Por outro lado, o Nordeste e o Sul apresentaram redução da desigualdade.
Isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5.000 abre caminho para um sistema tributário mais justo. O relatório ressalta que a isenção amplia a capacidade redistributiva do estado, mas ainda é insuficiente para reverter a concentração de renda existente no país. “Talvez essa tenha sido uma de suas maiores vitórias: o sistema tributário, frequentemente apresentado como uma engrenagem inacessível ao debate público”, destaca o estudo.
Segurança alimentar
Indicadores apontam para uma melhora nas condições de acesso à alimentação no Brasil. O estudo aponta que, entre 2023 e 2024, a proporção da população vivendo em domicílios com insegurança alimentar moderada ou grave caiu de 9,5% para 7,7%. A redução é justificada pela retomada das políticas públicas de combate à fome.
Apesar da melhora, a fome segue distribuída de maneira desigual entre a população. As divergências mostram que as mulheres negras apresentam proporção de insegurança alimentar moderada ou grave de 10%, percentual que representa mais do que o dobro registrado entre as mulheres não negras (4,6%). Entre os homens, a diferença é de 9,7% entre homens negros e 4,7% entre os não negros.
“Esses indicadores demonstram que o racismo continua sendo um importante determinante da insegurança alimentar”
Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026.
O Norte continua registrando os piores indicadores do Brasil. Na região, 14,9% da população vive em domicílios com insegurança alimentar moderada ou grave. O patamar é cerca de quatro vezes o observado na região Sul (3,7%). Segundo o relatório, os dados ajudam a compreender as especificidades econômicas, sociais, ambientais e culturais de cada região.
Indicadores de desnutrição infantil também escancaram as desigualdades étnico-raciais. No ano passado, a situação caiu para 3,4%, com grave divergência do percentual entre crianças não negras (3,3%) e negras (4%) e indígenas (7,3%). Conforme o relatório, os dados demonstram que a desigualdade alimentar não decorre exclusivamente da renda.
“[A desigualdade alimentar] resulta da combinação entre racismo estrutural, exclusão territorial, acesso desigual às políticas públicas, fragilidade dos sistemas locais de abastecimento e insuficiente reconhecimento dos modos próprios de produção de alimentos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais”
Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026.
Matéria de hoje no Portal UOL

























