
Raposo Tavares: a melhor estrada termina no outdoor?
A Raposo Tavares não começa em Ourinhos nem se resume ao caminho até Presidente Epitácio. Esse é, porém, o trecho que habitualmente percorro, sobretudo entre Presidente Venceslau, onde moro, e Presidente Prudente. Nele, encontro duas estradas: a que passa sob os pneus e a que se anuncia nos outdoors. A segunda é a melhor do Brasil pelo segundo ano consecutivo. A primeira ainda me deixa perguntas pelo caminho.
O trecho Ourinhos-Epitácio liderou a Pesquisa CNT de Rodovias em 2024 e 2025. Registro o reconhecimento, mas escrevo da pista, não do pódio. Hoje, a Raposo é, sim, melhor do que foi. Ainda assim, deixa muito a desejar.
Não tenho saudade da antiga insegurança. Entre Venceslau e Epitácio, a “Oncinha”, próximo ao km 630, tinha nome quase afetuoso e um histórico de muitos acidentes, inclusive fatais. Mais adiante, no eixo de Assis a Ourinhos, o denominado “Corredor da Morte” também foi cenário de muitos acidentes e vidas perdidas.
O medo das viagens não era apenas uma impressão. As melhorias importam. Mas superar um passado tão ruim não deveria ser o limite da nossa exigência.
Por volta de 2009, começaram a cobrar pedágio antes da duplicação dos trechos que ainda a aguardavam. Pagamos durante muitos anos até vê-la concluída.
A meu sentir, a cobrança não se justificava diante da estrada que recebíamos. Guardei recibos, pensando em pedir judicialmente a devolução dos valores. Desisti ao saber de uma decisão desfavorável numa ação cuja natureza já não sei precisar: se ação civil pública – ACP – ou outra ação coletiva. Já descartei os papéis de cobrança. O inconformismo, não
.
A duplicação trouxe alívio, não perfeição. No trecho que percorro, não há canteiros centrais largos a separar as pistas, mas barreiras de concreto do tipo New Jersey. Há passagens em que percebo desníveis. A Raposo, ao menos na nossa região, tem problemas de drenagem: quando chove, o acúmulo de água em vários trechos traz insegurança e risco efetivo aos motoristas.
O trânsito já foi interrompido por alagamentos e invasão de lama, inclusive aqui, em Presidente Venceslau. Quem dirige não atravessa uma média estatística: atravessa aquele metro de asfalto. E a excelência precisa aparecer justamente quando o céu fecha.
Nas proximidades do trevo de Piquerobi, a rodovia foi literalmente “tirada do eixo”: onde lembro uma reta, hoje o traçado se desloca para o lado. Pelo que recordo, as chuvas danificaram a travessia do Córrego do Saltinho, e desviaram a estrada para construir a ponte. Guardo também a memória de um desvio que custava tempo e dinheiro.
Não apresento um laudo, mas tampouco me basta compreender a escolha. Penso que deveria haver solução melhor – ainda que mais custosa – que mantivesse a estrada retilínea. Para isso também pagamos pedágios: para financiar a melhor solução, não apenas acomodar o caminho à que foi escolhida.
Depois vêm os cones: longos afunilamentos, quilômetros em uma faixa, muitas das vezes sem trabalhador ou trabalho visível. A cena está à vista de todos; imagino que muitos, como eu, se perguntem pelas razões de tanta extensão interditada. Não questiono a proteção necessária: a vida dos trabalhadores da rodovia merece proteção absoluta, sem concessões à pressa de quem passa.
Questiono a extensão, a demora e a falta de explicação. Os cones todos enxergam. As razões também deveriam estar claras. O usuário não deveria receber silêncio justamente onde lhe retiram espaço.
O pedágio, por sua vez, não afunila: chega inteiro, a cada passagem. Para quem repete o percurso, considero o custo elevado e a contrapartida insuficiente. A regularidade da cobrança merecia encontrar uma estrada igualmente regular em conforto, conservação e segurança. Na cabine ou na fatura das tags de passagem eletrônica, não há desconto pelas ressalvas que seguem conosco.
Imagino que existam rodovias muito melhores do que a Raposo, mesmo no Brasil. Penso na Imigrantes, Bandeirantes, no corredor Ayrton Senna-Carvalho Pinto e até na Castelo Branco (que já foi melhor!), referências nacionais de qualidade. Não lhes atribuo um primeiro lugar que a pesquisa não lhes deu; ponho em dúvida se o pódio esgota aquilo que esperamos de uma estrada. A comparação não precisa terminar onde começa o outdoor.
Não peço a Raposo de ontem. Peço mais da Raposo de hoje. A medalha deveria aumentar a responsabilidade, não encerrar a conversa. Entre Venceslau e Prudente, continuarei procurando no asfalto a estrada que leio no outdoor. Melhor, ela está. Boa o bastante para aquietar a cobrança de quem paga e passa? Essa resposta ainda não encontrei. Para mim é negativa.
JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL

























