
Jornalismo no ambiente escolar
Cursava o segundo ano do Ensino Médio — o antigo Segundo Ano Colegial —, que funcionava no Álvaro Coelho, em Presidente Venceslau. Corriam os anos 1970 quando eu e um grupo de colegas de classe decidimos criar um jornalzinho: o Hexágono. Era rodado num mimeógrafo emprestado de uma escola onde a mãe de um dos colegas era diretora.
O jornalzinho focava em curiosidades e relacionamentos da nossa vida escolar, sem qualquer conteúdo crítico ou ideológico. As poucas páginas traziam piadas e citações que envolviam o dia a dia, ficando restritas à turma da classe. Foram poucas edições — não me lembro exatamente quantas —, porém era uma diversão e um entretenimento em meio às aulas de Matemática do professor Beretão, cujas provas deixavam os alunos temerosos pelo rigor e pela dificuldade das questões.
O mesmo valia para as aulas de Física do professor Lemerci, que também eram complicadas para quem, como eu, tinha aversão à área. Não gostava de Exatas; tinha dificuldade com fórmulas e números. Minhas matérias preferidas eram História, Português e Literatura e, claro, as aulas de Educação Física.
Com a efemeridade do Hexágono, logo apareceu a Folha do Estudante, outra publicação criada no Colegial do Álvaro Coelho, também no final dos anos 1970. Rodado numa gráfica da cidade, o jornal tinha um contexto de crítica às normas que eram implementadas na parte pedagógica e disciplinar, além de expor as condições de precariedade do prédio físico do colégio.
Foi minha segunda experiência no jornalismo escolar. Com apenas duas edições, a publicação provocou desgastes junto à direção do colégio e motivou até uma auditoria na Inspetoria de Ensino da cidade. Ao criticar a “papeleta” — um controle de chamada para coibir que os alunos “matassem” determinada aula —, os portões de acesso que ficavam trancados e o péssimo estado dos banheiros, o jornal causou um verdadeiro reboliço no ambiente escolar da época.
Confesso que essas duas experiências foram os pontos de partida para minha escolha profissional. Entrei na UEL (Universidade Estadual de Londrina) em 1981, após um vestibular muito concorrido para a época. O jornalismo foi a minha opção no curso de Comunicação Social.
Foram quatro anos de muito aprendizado, numa época em que a informática nem passava perto das redações. Não havia computadores; todo texto era redigido em máquinas de datilografia. A diagramação era feita manualmente, e todo registro fotográfico era em preto e branco, feito com câmeras sem muitos recursos. Nós mesmos revelávamos as fotos.
Nas aulas de rádio e TV, havia poucos equipamentos diante da demanda. Os professores se desdobravam para que a parte prática e o aprendizado não fossem prejudicados. Ao final do curso, no oitavo termo, a sala foi dividida em grupos para a produção de um jornal-laboratório, que era impresso e distribuído para os demais períodos. O jornal-laboratório que ajudei a editar tinha como pauta reportagens que não eram exploradas pela mídia em geral, como a existência de vida após a morte, a descriminalização da maconha e a rotina de uma dançarina de strip-tease.
Coube a mim reportar a história de um time de futebol amador de Londrina que só perdia — uma espécie de Íbis da cidade.
E não deu outra: nova derrota.
JAMIL TANNOUS
Jornalista e músico

























