Crônica da Semana com José Roberto Dantas Oliva

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Do telefone declarado ao banco na palma da mão


Na edição nº 304 do Jornal “Integração”, de 7 de outubro de 1984, havia uma notícia que hoje parece saída de outro tempo, de um país em que o futuro ainda chegava por fios. A manchete anunciava: “Plano de Expansão da TELESP – Quase 400 telefones vendidos”. Na fotografia, o então responsável pelo setor comercial da TELESP em Presidente Venceslau, Osvaldo Ferreira Melo, formalizava um contrato na agência Banespa – era assim que se chamava – com o advogado Eliomar Gomes da Silva, provavelmente um dos compradores. O gesto, simples à primeira vista, tinha o peso de uma conquista.

Comprava-se, naquele balcão, muito mais do que uma linha. Comprava-se a esperança de ouvir, algum dia, o aparelho tocar dentro de casa.

Era o primeiro plano de expansão em dois anos e, dos 400 telefones colocados à disposição, 320 residenciais e 30 comerciais foram vendidos em apenas quatro dias, de 27 de setembro a 2 de outubro. Restaram 50 comerciais, destinados a uma nova tabela de preços. Havia pressa, fila, cálculo, ansiedade. Havia, sobretudo, a sensação de que ter telefone era trazer para dentro da sala uma pequena centelha de modernidade.

A própria espera tinha medida oficial: a Telesp se comprometia a instalar todas as linhas telefônicas (isso mesmo, naquela época telefone tinha linha!) no prazo máximo de 24 meses. Dois anos para que a campainha enfim despertasse a casa. Os residenciais custavam 912.100 cruzeiros à vista; os comerciais, 1,303 milhão de cruzeiros. Fora do plano, os valores subiam para 1,133 milhão e 1,619 milhão de cruzeiros. Telefone (a linha, não o aparelho em si!) não era despesa doméstica: era bem, patrimônio, quase escritura invisível. Entrava na declaração de imposto de renda como quem entrava no inventário das conquistas familiares.

Quando o plano se encerrou, 300 pessoas ainda ficaram à espera. A cidade contava com 2.000 telefones instalados. Pouco, se pensarmos nos silêncios forçados de tantas casas; muito, se lembrarmos que cada aparelho carregava cabos, postes, centrais, contratos, trabalhadores, prestações e a paciência de uma época em que a comunicação tinha endereço fixo e obedecia ao ritmo dos homens, não ainda à vertigem das máquinas.

Naquele tempo, telefonar era quase um ritual. Os números repousavam em agendas de papel, ao lado de aniversários, endereços e pequenas confidências. A ligação interurbana era anunciada, esperada, às vezes temida pela conta que viria depois. Falava-se com cuidado, escolhendo as palavras, porque cada minuto parecia pesar no orçamento. Quem não tinha aparelho recorria ao vizinho, ao comércio, ao orelhão, à boa vontade alheia. A vida analógica tinha cheiro de papel-carbono, tinta de carimbo, envelope fechado, fotografia revelada dias depois, rádio na cozinha e jornal dobrado sobre a mesa. A espera não era acidente: era parte natural da paisagem.

Então o mundo acelerou. Aparelho discado só se vê em museu. O telefone soltou-se da parede, diminuiu, iluminou-se, ganhou tela, memória e alma de máquina múltipla. Coube no bolso e, ao caber ali, levou consigo o banco, a câmera fotográfica, a filmadora, o mapa, a agenda, a calculadora, o gravador, a carteira, o jornal, a biblioteca, a sala de reunião, o álbum de família e uma praça pública inteira. O smartphone passou a pagar contas, transferir dinheiro, chamar carros, comprar remédios, acompanhar encomendas, guardar senhas, registrar nascimentos, despedidas, viagens e pratos de domingo. O mundo, que antes demorava a atender, passou a responder em segundos.

Não se pode negar o encanto. O digital nos deu atalhos onde antes havia corredores. Tirou muita gente da fila, encurtou distâncias, aproximou vozes, democratizou informações, abriu portas de trabalho, de estudo e de convivência. O que dependia de formulário, carimbo e horário comercial passou a acontecer no intervalo de um café. Famílias separadas por estradas se veem por vídeo. Documentos viajam sem envelope. Notícias atravessam continentes antes que a xícara esfrie.

Mas nenhuma travessia se faz sem sombra. O aparelho que nos libertou também aprendeu a nos perseguir. Toca sem licença, vibra sem pudor, invade a hora do almoço, o silêncio da noite, a conversa suspensa, o descanso merecido. Do outro lado, nem sempre há uma voz humana, muito menos amiga. Há robôs, centrais insistentes, ofertas que não pedimos, cobranças que desconhecemos, promessas falsas, armadilhas polidas com aparência de serviço.

O telefone, que já foi sinal de segurança, passou a carregar uma suspeita no toque. Atender número desconhecido virou pequeno ato de coragem. Clicar em um link exige desconfiança. Uma mensagem pode fingir ser banco, parente, empresa, repartição pública. O golpe aprendeu a falar a língua da urgência, da dívida, do prêmio, do medo. Pix, cartões, aplicativos, compras virtuais e dados pessoais tornaram-se novas fechaduras de uma casa sem paredes visíveis. A antiga dificuldade era conseguir falar; a dificuldade de agora é saber se a voz merece crédito.

Também ficaram para trás — ou deveriam ter ficado — as antigas justificativas das operadoras. Antes, reclamava-se da demora para instalar o telefone. Hoje, reclama-se da falta de controle sobre quem nos alcança pelo aparelho, sobre o uso dos dados, sobre a repetição das chamadas, sobre a vulnerabilidade do consumidor. A tecnologia correu como rio de enchente; a proteção, muitas vezes, veio a passos de procissão.

A passagem do analógico ao digital é feita dessas duas luzes: a do maravilhamento e a da inquietação. Ganhamos velocidade, comodidade, alcance, memória e praticidade. Perdemos parte do silêncio, da privacidade, da confiança sem senha. Antes, o telefone era tão raro que se declarava como patrimônio; hoje é tão comum que se confunde com a própria mão. Antes esperávamos por ele; agora, muitas vezes, gostaríamos que ele esperasse um pouco por nós.

Talvez aquela fotografia na agência Banespa, em 1984, ainda nos diga mais do que parece. Um homem assinava um contrato para entrar numa fila de futuro. Quarenta anos depois, carregamos no bolso contratos invisíveis, contas, senhas, documentos, fotografias, lembranças, dinheiro e sustos.

O futuro chegou prático, luminoso, indispensável. Chegou também impaciente, barulhento, desconfiado. E talvez nosso desafio seja exatamente este: não voltar ao tempo em que a voz demorava dois anos para chegar, mas aprender a viver num tempo em que ela chega demais, por todos os lados, pedindo que a tecnologia, além de rápida, volte a ser humana.

JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL

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