Ponto de Vista “Agosto” com Nando Freitas

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“Agosto”


Mês do desgosto. Do cachorro louco. Creio que muitos dos leitores já ouviram estas expressões nada elegantes em relação ao oitavo mês do ano. Historicamente falando, a primeira delas tem origem em Portugal, quando boa parte das caravelas lusitanas partia em grandes navegações, carregadas de ambições mercantilistas e incertezas quanto à volta da tripulação. Esposas e noivas aflitas viam seus amados embarcarem em aventuras Atlântico adentro, sob a dúvida de uma viuvez em potencial.

Em terras brasileiras, a maldição de agosto ganhou força com um acontecimento marcante dentro da política nacional: o suicídio de Getúlio Vargas, que foi tema de um livro escrito por Rubem Fonseca e serviu como base para a minissérie televisiva “Agosto”, um clássico da nossa dramaturgia.

Quanto aos cachorros loucos, a denominação é fruto das campanhas de vacinação antirrábica que tradicionalmente ocorrem neste mês. Juntam-se, então, as raparigas apaixonadas e aflitas de Portugal, um presidente que deu cabo da própria vida e cachorros sendo vacinados para a prevenção da raiva canina, e temos um mês visto com desconfiança e execrado por muitos, dentre os doze que compõem o nosso calendário contemporâneo.

Desconfiança esta aumentada pelo trocadilho frustrante para aqueles que esperam ansiosamente por algo: ouvir a resposta de que o mesmo será concretizado “a gosto de Deus” quando se requer pressa exige um minucioso exercício de paciência, o que não é fácil.

Carregado de superstições, o dia 13 de agosto — também conhecido como hoje — potencializa tais desconfianças, pois alia uma dezena tradicionalmente ligada ao azar a um mês malquisto por muitos. Poderia ser pior: já pensou uma sexta-feira 13 num mês de agosto? Escapamos do patamar máximo do mau agouro por um dia! Afinal, hoje é quinta-feira. Ainda bem!

Não compartilho de crendices. Agosto é um mês em que acontecem coisas ruins e boas, como em todos os outros. Mas algumas coisas parecem se propagar de tal forma que ganham força descomunal e, quando vamos ver, já estão fazendo parte do inconsciente coletivo de todo um povo.

Eu diria que, se alguém fizesse uma analogia entre os doze meses do ano e a dúzia de apóstolos que acompanhavam Jesus Cristo, inevitavelmente ligaria o oitavo mês do ano a Judas Iscariotes, aquele que se vendeu por trinta moedas de prata. Agosto tem trinta e um dias, e as minhas pratas já acabaram no dia treze, antes mesmo de encerrar sua primeira metade. Não, não quero entrar nessa neurose supersticiosa, mas… Ô mês complicado!

NANDO FREITAS
Funcionário Público estadual

Uma resposta

  1. A propósito, Gilberto Gil, na canção “Refazenda”, usa esse mês do calendário para se referir ao abacateiro – “Sabes ao que estou me referindo/ Porque todo tamarindo tem/O seu agosto azedo/ Cedo, antes que o janeiro/ Doce manga venha ser também”

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