
OS COMIGOS QUE ME HABITAM
É conhecida a frase atribuída a Fernando Pessoa que, de tão simples, parece esconder um universo inteiro: “eu não me aguento comigo e com os comigos de mim.”
Talvez não exista confissão mais humana. Passamos boa parte da vida acreditando que somos uma pessoa única, inteira, coerente. Entretanto, basta um silêncio mais prolongado para descobrirmos que, dentro de nós, existe uma pequena multidão; habitam-nos o que fomos, o que desejamos ser, o que fingimos ser, o que os outros esperam que sejamos e, principalmente, aquele que ainda não tivemos coragem de conhecer.
Não raro, esses “comigos” entram em desacordo.
Enquanto um deseja permanecer onde tudo é seguro, outro insiste em partir. Um se alimenta das certezas; outro sobrevive das perguntas. Um coleciona justificativas; outro exige mudanças. Um prefere acomodar-se ao conhecido; outro sente que viver sem transformação é apenas prolongar a existência.
É nesse embate silencioso que nasce o inconformismo. Costumamos atribuí-lo às circunstâncias externas, aos acontecimentos ou às pessoas. Poucas vezes percebemos que a maior parte das nossas inquietações nasce desse diálogo permanente entre as diferentes versões que carregamos. O conflito não está apenas ao redor. Ele habita a intimidade.
E talvez isso não seja um defeito. Talvez seja justamente a prova de que ainda estamos vivos. A maturidade começa quando deixamos de lutar contra os muitos que habitam em nós e passamos a conduzi-los na mesma direção.
_Lourival Mendes Magalhães_21º45’59”S_52º06’19”O
De Presidente Epitácio.
Empresário e Escritor

























