
Jornalismo Científico x Negacionismo
A palavra “negacionismo” ganhou força sobretudo durante a pandemia de Covid-19. No Brasil, assistiu-se a um presidente da República desacreditar a ciência e tentar impor medicamentos comprovadamente ineficazes para conter o vírus. Muitas pessoas morreram acreditando que seriam salvas ao tomar cloroquina e similares. O mesmo presidente insuflou o não uso de máscaras, que eram indicadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para evitar o contágio por via oral. Por outro lado, a compra de vacinas no Brasil poderia ter sido mais rápida não fossem a negligência e a relutância desse mesmo mandatário.
Desacreditar a ciência é uma prática que geralmente parte de governos autoritários. Na pandemia de Covid-19, o Brasil registrou mais de 700 mil mortes. A cobertura da imprensa durante a crise sanitária teve um papel importante ao informar corretamente sobre os cuidados para evitar o contágio. O jornalismo científico serviu de base para que o negacionismo não dominasse as narrativas sobre a pandemia.
Daí a importância do jornalismo científico. É uma especialização da imprensa dedicada a traduzir, apurar e difundir descobertas, métodos e debates das pesquisas científicas (nas áreas de exatas, naturais, biomédicas, humanas e tecnológicas) para o público geral. Seu papel e suas funções principais servem de ponte com a sociedade para transformar a linguagem técnica e densa dos artigos acadêmicos em conteúdo acessível, permitindo que a população compreenda o impacto da ciência no cotidiano.
Ao combater a desinformação, esse jornalismo atua como um filtro de credibilidade diante de boatos, fake news e da chamada “infodemia” (excesso de informações não verificadas) — papel que ganhou ainda mais destaque durante a crise da Covid-19. O jornalismo científico atua também no controle e no debate público, pois examina não apenas os resultados finais, mas também os contextos sociais, políticos, econômicos e éticos por trás de uma pesquisa (como financiamentos, conflitos de interesse ou disputas entre instituições).
Os desafios da relação entre imprensa e ciência denotam a necessidade de o jornalista simplificar a informação sem distorcer o rigor técnico ou criar falsos sensacionalismos (como transformar uma pesquisa preliminar em “cura garantida”). Há que se ressaltar que, a depender das fontes utilizadas, o jornalismo científico muitas vezes ainda reproduz conteúdos vindos de grandes centros de pesquisa do exterior ou do eixo Sul-Maravilha do Brasil, subestimando achados regionais ou de universidades fora dos grandes centros.
De qualquer modo, o jornalismo científico necessita de tempo e profundidade para a apuração e o retorno do público. Enquanto o jornalismo diário opera sob alta velocidade, a pesquisa científica exige tempo de maturação, revisão por pares e contexto histórico — um formato melhor explorado por revistas especializadas (como a Pesquisa FAPESP) ou pelo jornalismo literário. Diante da insistência de muitos negacionistas que operam no país, o jornalismo científico é uma luz na escuridão]
JAMIL TANNOUS
Jornalista e Músico

























