
Não tá fácil pra ninguém
Exatamente assim “Não tá fácil pra ninguém” disse Asmodeus ao ouvir Mephistopheles reclamar das tribulações e tradições do inferno que, ainda segundo aquele que não ama a luz, estão desacreditadas.
E falou Mephistopheles: “Que medo uma criança pode ter de levar chibatada no inferno se todo dia na Terra é aliciada pela mãe e, quando não, estuprada pelo pai?”.
“E não é, que é?”, redarguiu Asmodeus, um dos grandes na hierarquia infernal.
Sentado na mesa ao lado, ao perceber que sua especialidade era usada como exemplo de descrédito dos usos e costumes demoníacos Pharzuph, anjo caído da fornicação e luxúria, emendou: “Espera aí! Só no meu? E o cara da superfície vai achar aterrador passar a eternidade em caldeirão de óleo fervente se, desde que lembra que é gente, nunca teve um prato de comida para comer, quando muito resto de macarrão achado no lixo?
“Verdade”, emendou o já injuriado Asmodeu.
Se sentindo a vontade naquele amontoado de bestas demoníacas, Wormwood, senhor das pragas que até então estava quieto no seu canto, vociferou sua indignação com o atual estado das coisas nos domínios do Coisa Ruim:
“Vocês estão achando ruim? E eu? Que desgraça posso levar pra um mundo cada dia mais estropiado com vazamento de óleo, esgoto a céu aberto e lixo espalhado para todo lado? Me diz: pra que eu sirvo se eles atiçam praga neles mesmos?”
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E foi assim, entre porções mistas de coelho a passarinho e batata frita e regadas a cerveja quente e uísque com mel, que as queixas continuaram pelo tempo de uma eternidade, até que chegou Penemuel que, para quem não sabe, é o cramunhão que ferra a humanidade através da escrita. E chegou se achando: “E aí moçada, beleza? O que tá rolando de ruim (bom) nas profundezas?”.
Tendo como resposta o descaso de uns e xingamentos do tipo “Vai pro Céu” de outros, Penemuel entendeu que o ambiente não estava dos melhores mas, vaidoso como só, resolveu se gabar: “Caras, vocês não acreditam na zoeira que aprontei lá em cima! Inventei um negócio chamado aplicativo de mensagens e joguei na mão dos trouxas. Agora é tanta mentira rolando, tanto babaca falando que o outro é um merda, que tem que morrer, que eu só dou risada. E o que aumentou de gente chamando os da família de escroto? Nem aqui (no inferno) tem isso”.
Foi nesse instante que o cheiro de enxofre ficou mais forte e entre labaredas e fumaças surge o Diabo em pessoa: “Tá vendo meu povo? É disso que o reino da escuridão precisa: criatividade! Temos que investir em novas maldades porque as velhas, como as que a gente fazia na política, tem humano fazendo muito pior que nós.”
E finalizou: “E agora vamos trabalhar, cambada de chifrudo vagabundo, que isso aqui não é Brasília, não”.
ALEMÃO TEDESCO
Advogado

























