
“A importância do Estado laico”
O primeiro contato que tive com o tema da intolerância religiosa foi por meio da dramaturgia, assistindo à minissérie O Pagador de Promessas, na TV Globo, em 1988, protagonizada por José Mayer. Originalmente escrita para o teatro por Dias Gomes, em 1960, a obra foi adaptada para o cinema em 1962, vencendo a Palma de Ouro no Festival de Cannes e tornando-se o primeiro filme brasileiro a concorrer ao Oscar na categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”.
Basicamente, a história conta a saga de Zé do Burro, um camponês que faz uma promessa para que seu burrinho de estimação, chamado Nicolau, se cure após ser atingido por um raio. A promessa é feita em um terreiro de candomblé à Iansã, que, no sincretismo religioso com o catolicismo, corresponde à Santa Bárbara, protetora contra as tempestades.
Zé do Burro promete carregar uma cruz até a igreja da santa, em Salvador, mas enfrenta a oposição do padre justamente por conta do sincretismo religioso que está na origem da promessa. A partir daí, a saga do protagonista ganha outros contornos, inclusive políticos, quando muitos associam, de forma sensacionalista, sua história à pauta da reforma agrária.
O telespectador que tem o mínimo de empatia solidariza-se com Zé do Burro. Afinal, a trama o trata como um ingênuo injustiçado, o que, de fato, ele é. Porém, o sentimento é apenas de piedade, pois se trata de uma obra de ficção que tem a intolerância religiosa como tema central.
No entanto, o sentimento transforma-se em revolta quando aquilo que é sagrado para o indivíduo torna-se objeto de desrespeito. Foi o que senti quando o pastor Sérgio Von Helder chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, em um programa televisivo, no ano de 1995. Enquanto católico, obviamente, fiquei indignado.
Porém, não deixei de fazer uma autorreflexão acerca do fato: quantas outras religiões praticadas no Brasil não sofrem agressões semelhantes por parte da maioria cristã, composta por católicos e protestantes? Quantas vezes não ouvimos a célebre frase “chuta que é macumba” ou até mesmo afirmações de que outras doutrinas minoritárias seriam manifestações escamoteadas de forças malignas?
Pois é, se queremos respeito ao “nosso sagrado”, devemos respeitar o sagrado alheio. É para isso que serve o Estado laico: para que todas as religiões sejam praticadas com liberdade de culto e respeito mútuo. Contudo, um novo sincretismo, o político-religioso, desvirtua a essência do Estado laico, alegando, de forma equivocada, que este pretende proibir as religiões e persegui-las.
Desonestidade intelectual que parece ter um único objetivo: transformar o país numa teocracia informal e oportunista, com finalidades essencialmente políticas. Mas a Constituição Federal está aí para ser tão respeitada quanto as Bíblias, os Alcorões e as Torás. Que cada cidadão brasileiro tenha o direito de frequentar livremente terreiros, mesquitas, sinagogas, centros espíritas e igrejas. E que a liberdade de culto seja tão sagrada quanto a fé de cada um!
NANDO FREITAS
Funcionário público estadual

























