
A chama que não se apaga
Denise Eloá Custódio Erbella de Castro
É muito difícil que duas pessoas compartilhem os mesmos interesses e ardores. Para isso, talvez fosse preciso habitar a pele uma da outra, caminhar lado a lado desde o início de suas histórias. Se sentir da mesma forma é quase impossível, respeitar e compreender deveria ser o mínimo, reconhecendo a importância e o peso daquilo que cada um carrega.
Nasci no ano em que meu pai disputava sua primeira eleição. Desde então, foram poucas – talvez nenhuma – as campanhas das quais minha família não tenha participado, direta ou indiretamente. Conheci muito cedo os diferentes sistemas políticos, não só nos bancos da escola, mas também nas conversas de casa. Ali aprendi a decidir, a escolher e a defender a igualdade e a justiça social, valores profundamente cristãos. Foi meu pai quem me transmitiu esses princípios, embora fosse um político liberal.
Na escola e nas relações que construí durante os anos de ditadura, compreendi o valor da democracia – e o perigo representado por quem flerta com golpes e extremismos. Em minha família, política nunca foi apenas assunto eleitoral: era pensamento, sentimento e presença. Estava nos lugares, nos momentos e nas escolhas que fiz.
Minhas convicções orientaram cada gesto: numa palestra, nos atendimentos da Delegacia de Defesa da Mulher, como Delegada de Polícia e em tantos outros instantes da vida. Fiz escolhas sem trair meus princípios.
Fui a vereadora do PT mais votada em Presidente Venceslau, contra tudo e contra todos. Mais tarde, candidatei-me a deputada estadual, consciente de que não tinha chance de vitória. Ainda assim, conduzi uma campanha feroz e apaixonada por Dilma e recebi quase 11 mil votos.
Foi uma fase dura. Perdemos dinheiro, mas nos reerguemos.
Na Câmara Municipal, não fiz oposição por oposição à gestão do meu irmão, então prefeito, e por isso fui criticada por companheiros de partido. Mantive, porém, a coerência de sempre: agi segundo minha consciência e minhas convicções, sem converter o vínculo familiar em silêncio ou conivência. Mudei de partido e, algum tempo depois, encerrei minha trajetória na vida pública.
O espaço que a política ocupa em minha existência, contudo, permanece intacto. Não exijo – nem desejo – que os outros sintam como eu. Sei apenas que, como acontecia com meu pai, essa chama me faz vibrar e viver intensamente.
Tenho outros amores: meus filhos e minha família, afetos que compartilho. A política, porém, é um sonho só meu: o de viver numa sociedade melhor, mais justa e igualitária. Ela está na alma e no coração; mantém-me viva e guiada por um propósito.
Gostaria de ser compreendida, mas nem sempre sou. Muitas pessoas medem os sonhos pelo número de vitórias ou pelo dinheiro acumulado. Às vezes, ouço: “Você não conquistou respeito” ou “É uma política fracassada”. Não me vejo assim. Sou lembrada tanto como uma delegada de atuação justa e irrepreensível quanto como alguém íntegra, fiel aos mesmos ideais ao longo dos anos.
Até hoje, há quem me pare na rua.
Não sei quanto tempo ainda viverei, mas tenho certeza de que continuarei defendendo minhas ideias com o mesmo ardor. Sucumbir seria deixar que matassem meus sonhos; e, se eles morressem, eu morreria também – ou seguiria numa existência calada, muda e sem sentido.
Não quero que ninguém renuncie às próprias paixões. Algumas delas eu nem sequer compreendo, mas jamais impediria que fossem vividas.
Por isso, nestes dias, não posso me recolher: vejo conquistas das mulheres, alcançadas após tantos anos de luta, novamente ameaçadas. Vivo um luto íntimo diante do Congresso eleito e das críticas desrespeitosas que recebo, mas nem a apreensão e nem a mágoa me afastam daquilo em que acredito.
Talvez somente agora, aos 67 anos, eu perceba que o entusiasmo encontra moradas diversas em cada pessoa. A mim, move a luta coletiva, não apenas as batalhas individuais. Isso nunca me tornou desrespeitosa ou afrontosa com os meus, nem mesmo sobre um palanque, quando as circunstâncias de uma campanha poderiam acirrar as diferenças.
Se o presente inspira apreensão, também desperta em mim uma alegria firme: com raras exceções, minha família hoje se reúne em torno de valores maiores. Une-nos a defesa da democracia e o compromisso com um país mais justo e igualitário, aspirações cristãs que dão sentido à nossa caminhada.
Decididamente, não é hora de me calar. Se o fizesse, poderia sentir que tudo quanto vivi e defendi foi em vão, como se minha história tivesse fracassado.
Escolho permanecer de pé, em defesa da democracia, das conquistas sociais, do SUS, da Farmácia Popular e de todas as políticas que amparam quem mais precisa. Cuidar do que construímos é tarefa do presente: sem retrocessos nem tesouras sobre direitos, com coragem para seguir adiante. É preciso proteger-nos de qualquer desânimo, para que a chama não se apague.
DENISE ELÓA CUSTÓDIO ERBELLA DE CASTRO, filha de um político e uma feminista, Delegada de Polícia aposentada, Vereadora na legislatura 2009–2012, casada com José Renato de Castro há 36 anos, mãe de quatro filhos e avó de dez netos dos quais cinco são mulheres.


























Respostas de 3
Tem toda a minha admiração!!
Lindo e importante texto.
Não a conheço pessoalmente , mas o fruto não cai longe do pé.
Vamos lutar até o último suspiro e caso tudo conspire contra, ninguém solta a mão de ninguém !!!
Denise sempre foi uma inspiração para mim, desde quando a conheci na Delegacia da Mulher, numa entrevista para o Integração sobre violência doméstica. Sinto-me feliz em compartilhar dos mesmos ideais para a nossa sociedade.