
“China”
Não há como negar que, se tem um país que é a bola da vez no globo terrestre em termos de geopolítica e economia, é a China. Sou de uma geração que acompanhou, em 1989, as cenas do famoso “Massacre da Praça da Paz Celestial”, quando o exército chinês reprimiu covardemente os protestos pacíficos de estudantes que clamavam por abertura democrática em um país que vivia na pobreza, em meio a um governo autoritário.
Uma nação que tinha como característica marcante a mão de obra pouco remunerada e a imponente muralha que parecia delimitar, para sempre, o acesso do país à economia mundial e à globalização.
Exatos trinta e sete anos separam 1989 de 2026. O que vemos, atualmente, é outra China: renovada, dinâmica economicamente, um grande polo inovador de ciência, robótica, tecnologia e matrizes energéticas. ]
Se, naquela época, a extinta União Soviética começava a se fragmentar e perder o posto de segunda superpotência mundial, era improvável pensar que, quatro décadas depois, a China pudesse ocupar atualmente a “medalha de prata” na economia global.
É um país complexo, cujo modelo socioeconômico provoca debates, no mínimo, intrigantes. Para os que defendem o Estado mínimo e o liberalismo econômico, os chineses mostram que a presença estatal forte pode também trazer bons resultados.
É um modelo híbrido de economia, com membros do Partido Comunista presentes tanto nas empresas estatais quanto nas privadas do país. Para os defensores da democracia, é contraditório testemunhar uma nação evoluir tanto nos seus indicadores socioeconômicos sem eleições diretas para a presidência, cujo espaço para oposicionistas é inexistente.
Curiosamente, em termos de política e economia, a China contradiz dogmas e tendências que, na cultura ocidental, são praticamente inquestionáveis. Mas é inegável que, mesmo sendo a segunda maior economia mundial em relação ao PIB, ainda há imensos desafios para que o país tenha uma posição condizente em outro ranking, que considero muito mais importante no que diz respeito ao bem-estar da população: o IDH – Índice de Desenvolvimento Humano –, em que a China ocupa ainda o 78º lugar. Mesmo com tantos saltos na expectativa de vida, no acesso à educação e no desenvolvimento científico-tecnológico, os chineses ainda estão no grupo de “países em desenvolvimento”, e não dos “países desenvolvidos”. O que falta?
É aí que penso que este é um processo gradual que vai culminar em outra demanda, natural quando os povos passam a ter acesso à renda, cultura e informação. Em um futuro de curto a médio prazos, arrisco dizer que esta população vai clamar por liberdade e pela escolha direta de seus líderes, pela democracia. Por enquanto, a China vem colhendo os louros da abertura econômica, que pode, sim, ter como consequência a pressão popular por liberdade e abertura política.
Enfim, minha visão pode estar equivocada, atrelada às doutrinas ocidentais acerca de política e economia, e a China vem provando que tem seu modelo intrigante de crescimento/desenvolvimento. Mas a história mostra que, quando um país progride, suas demandas também evoluem: no princípio, pão e água, sucedidos por cultura e informação, para depois, liberdade. Nada mais justo, ocidentalmente falando…
NANDO FREITAS
Funcionário público estadual

























