
Empresarial Center: um esqueleto urbano de quase quatro décadas
Trinta e sete anos depois de anunciado como uma das mais ousadas iniciativas imobiliárias do interior paulista (e era!), o Empresarial Center permanece no coração de Presidente Venceslau como um esqueleto urbano. No térreo, algumas lojas sustentam o movimento cotidiano. Acima delas, pavimentos sem acabamento interno e janelas sem vidros expõem uma construção paralisada na principal avenida da cidade.
O tempo desbotou a pintura externa, marcou o concreto e transformou a promessa em espera. O edifício que deveria renovar a área central passou a comprometer sua paisagem. Reconhecer a grandeza do projeto não significa aceitar indefinidamente uma obra inconclusa: a cidade, agora centenária, já esperou demais.
Para compreender o contraste, é preciso voltar à edição nº 684 do jornal “Integração”, então bissemanal por mim dirigido, publicada em 28 de junho de 1989. Naquele dia surgiu o primeiro de uma série de anúncios de página inteira, veiculados em todas as edições. Sem imagens, endereço ou explicações, a estreia trazia no centro da página apenas uma palavra e dois sinais de interrogação: “AGUARDEM ??”.
Na publicação seguinte, o mistério ganhou novas palavras: “AGUARDEM NOVO LANÇAMENTO??”. Depois, recebeu endereço: “no centro de P. Venceslau”. Em 8 de julho, a promessa se apresentou como “o projeto arquitetônico mais arrojado do interior de São Paulo” e marcou encontro com o leitor para a próxima edição.
A revelação veio em 12 de julho, na edição nº 688. Na página 5, uma bela maquete ocupava o centro do anúncio: era o Empresarial Center, projetado para a Avenida D. Pedro II, 604. “Breve, lançamento oficial”, dizia o rodapé. A assinatura era da Buchar & Santos Participações e Empreendimentos Ltda., sob um lema que hoje parece dirigido à própria obra: “erguendo soluções com amor”.
Em 23 de agosto, a capa proclamava que, em Presidente Venceslau, seria possível trabalhar tão bem quanto se morava. O projeto previa dois subsolos com 83 vagas, minishopping com 11 lojas, restaurante de 506,58 metros quadrados e 36 unidades – quatro por andar – destinadas a lojas, escritórios e consultórios. Cada uma teria 70,63 metros quadrados de área privativa e 132,30 de área total, além de dois banheiros, copa, preparação para ar-condicionado, interfone e sprinklers, dispositivos automáticos que liberam água ao detectar calor em caso de incêndio.
Telex, fac-símile e antena parabólica também integravam o pacote. Hoje pertencem a outra era tecnológica; em 1989, porém, eram sinais inequívocos de vanguarda. Dois elevadores completavam um padrão de modernidade ainda raro fora dos grandes centros. O lançamento ocorreu em 2 de setembro de 1989, quando Presidente Venceslau completava 63 anos, em meio à euforia construtiva trazida pelo Plano Cruzado.
Até o fim de 1987, o Pioneiro, de sete andares, era o único edifício habitado no horizonte local. Depois vieram o Carlos Platzeck, com 12 andares, o Solar de Sant’Anna, com 15, e o New Center, prédio comercial de três pisos. Também estavam em construção o Saint Raphael e o Acalanto, ambos com quatro andares, além do Atlante, com 12, na mesma D. Pedro II.
Nesse cenário, o Empresarial Center surgia como a grande novidade da avenida, a principal do centro da cidade. Na cobertura dos nove pavimentos haveria restaurante, american bar e salão de convenções para 400 pessoas. Não era pouca coisa. O projeto ainda conserva sua atualidade essencial; em 1989, revelava a ousadia de quem desejava antecipar o futuro.
Em 16 de setembro, a edição 704 registrou o sucesso do lançamento. Noticiava que a empreendedora já havia construído dois residenciais de alto padrão: o Sollar de Sant’Anna, em Presidente Venceslau, com 15 andares e 30 apartamentos de luxo, e o Jair Rotali Rezina, em Tupã, com 12 andares e 24 apartamentos de luxo. Eram realizações que a credenciavam para assumir uma proposta daquela dimensão. Quinze unidades do novo empreendimento estavam vendidas, 50% apareciam como reservadas, e a conclusão, pelo sistema de preço de custo, era esperada em 24 meses.
Mas o futuro começou a tropeçar no presente. O diretor-presidente, Antonio José Aldrighis dos Santos, buscava financiamento na Caixa Econômica Federal, no Banco Itaú ou no Banco América do Sul e lamentava as barreiras impostas aos empreendimentos do interior. Ainda assim, a edição nº 710 informou, em 7 de outubro de 1989, que a concretagem das 51 sapatas havia começado e oito já estavam prontas. Todas as lojas teriam sido adquiridas por um grupo empresarial de São Paulo, que não foi revelado. Restavam os escritórios, e os condôminos decidiram tocar a obra a preço de custo, sem financiamento.
A estrutura subiu e chegou a receber pintura externa, mas nunca se tornou o centro empresarial anunciado. Talvez a proposta fosse ambiciosa demais para o mercado local daquele momento; talvez os entraves de comercialização e crédito tenham cobrado um preço que ninguém previa. Houve até uma tentativa, sem êxito, de mudar a destinação exclusivamente comercial para uso misto, com unidades residenciais. Ainda assim, o desenho original – e preferencial – permanece o de um centro comercial capaz de renovar a região central.
O mérito da iniciativa merece louvor; o abandono, não. A solução precisa começar pela engenharia: examinar a segurança da estrutura, realizar ensaios tecnológicos no concreto, medir eventual corrosão das armaduras de aço e, confirmada a viabilidade, modernizar o edifício sem destruir o que ainda conserva de valioso. A fachada, por exemplo, mantém linhas atuais. Já as instalações elétricas, hidráulicas e de segurança, provavelmente exigirão revisão integral, a ser definida por avaliação técnica.
Ao mesmo tempo, será necessário enfrentar os entraves jurídicos: identificar os adquirentes, localizar os atuais responsáveis pela empreendedora, regularizar a obra e reunir investidores dispostos a concluí-la. Os nós documentais podem ser antigos, mas não são eternos; devem ser desatados com método, transparência e vontade pública.
Se esses caminhos não avançarem em prazo razoável, caberá ao município agir. Como se encontra, o imóvel não cumpre sua função social. O Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001) prevê, entre seus instrumentos, o parcelamento, a edificação ou a utilização compulsórios e, em seguida, o IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) progressivo no tempo.
Para a aplicação do IPTU progressivo, poderá ser necessário verificar se o plano diretor delimita a área e se há lei municipal específica com condições e prazos. Caso essa disciplina ainda não exista em Presidente Venceslau, poderá ser instituída para este e outros imóveis urbanos não utilizados ou subutilizados. O propósito é induzir o adequado aproveitamento da propriedade.
Enquanto o Empresarial Center permanecia paralisado, a verticalização de Presidente Venceslau seguiu outros caminhos. No loteamento Chácaras Vila Carmem, conhecido como “Volta ao Mundo”, surgiu o Ville Conquisttá, condomínio formado por blocos residenciais de quatro andares. No antigo Campo da Mariana, a CDHU construiu 72 unidades habitacionais que hoje integram o Conjunto Habitacional Mauro Villanova, nas proximidades da ESF da Vila Vicentina e da EMEI Profa. Maria Augusta Monteiro.
Mais recentemente, foi concluído o Edifício Pedro Santiago, com 20 andares e 80 apartamentos. Presidente Venceslau continuou a crescer para o alto; o Empresarial Center, porém, permaneceu suspenso no tempo.
Em 1989, a publicidade pediu à cidade: “Aguardem”.
Presidente Venceslau aguardou 37 anos.
A homenagem mais digna à coragem de quem imaginou o Empresarial Center não é conservar sua ruína como monumento involuntário, mas devolver-lhe um destino, pela conclusão, pela recuperação ou por outra solução responsável. Um município centenário não pode continuar pedindo licença ao passado para cuidar da própria paisagem. Chegou o tempo de trocar a espera pela decisão.
JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL


























Respostas de 2
Excelente lembrança. O imóvel referido encontra-se abandonado, em seus andares superiores, já há décadas, sem nenhuma destinação apropriada e nem mesmo cumprindo sua função social e ainda deixando um visual desagradável em pleno centro da cidade. Uma idéia ao Poder Público Municipal seria desapropriar o edifício ocioso e mediante adesão ao programa federal “Minha Casa, Minha Vida”, na modalidade “retrofit”, efetuar a compra e reforma do imóvel, para entregar os apartamentos existentes como “Habitações de Interesse Social” (HIS), nos moldes do que foi feito pela prefeitura de São Paulo. Quem sabe, pudesse ser uma solução plausível para a destinação deste imóvel, que corre o risco de desintegrar-se com o tempo e até mesmo causar algum acidente grave no futuro.
Obrigado pelo comentário, César. Como disse no artigo, inicialmente penso que o desenho original – e preferencial – permanece o de um centro comercial capaz de renovar a região central. Entretanto, nada que impeça que sua sugestão seja considerada por quem de direito e, eventualmente, até adotada.