
A literatura no jornalismo
O jornalismo literário, ainda que pouco disseminado, é uma atividade que mereceria maior referência. Trata-se do uso de técnicas escritas da ficção para narrar fatos reais.
Os fatos reais decorrem de apuração rigorosa, levando em consideração o lead da notícia: o quê, quem, quando, onde e por quê.
No jornalismo literário, mesmo relatando acontecimentos reais, usam-se uma linguagem elaborada, construções de cenas, diálogos e pontos de vista subjetivos.
Nesse contexto temos duas linguagens que se entrelaçam no discurso: a conotativa, que é subjetiva, e a denotativa, que é objetiva. Ou seja, temos o significado, que é o fato em si, e o significante, que se completa com narrativas e figuras de linguagem.
Um exemplo clássico é a obra “Os Sertões”, escrita por Euclides da Cunha no início do século XX, que mistura relato histórico e força literária.
O jornalismo literário vai além do formato tradicional da notícia (que foca apenas no essencial do momento) para revelar o lado humano e os detalhes de uma história.
Já o jornalismo factual se prende à informação, às análises e aos desdobramentos, tendo o feedback do leitor para a formação de opinião.
No Brasil, o jornalismo literário se fortaleceu na década de 1960 através de revistas como a “Realidade” e o jornal “O Pasquim”. Ambas as publicações ganharam o espaço necessário para firmarem-se como um gênero de reportagem e uma nova forma de escrita pouco conhecida, porém já atestada em outros países por nomes como Tom Wolfe, Gabriel García Márquez e José Saramago, entre outros escritores.
Ambas as publicações tiveram passagem curta, pois foram forjadas no período da ditadura militar. Elas revolucionaram a forma de fazer jornalismo ao incorporar recursos literários, textuais e comportamentais inéditos no país, mas sucumbiram no final dos anos 1970.
Hoje, o jornalismo literário vive uma fase de descentralização e migração de suportes. Ele perdeu espaço nas páginas físicas das grandes revistas semanais tradicionais, mas encontrou fôlego novo no mercado de livros-reportagem, em plataformas digitais independentes, na academia e na forte expansão dos podcasts narrativos. Autoras brasileiras de grande destaque, como Daniela Arbex (autora de Holocausto Brasileiro) e Eliane Brum (O Olho da Rua), tornaram-se referências contemporâneas ao usar a técnica para dar voz a populações marginalizadas e cobrir temas complexos, como a Amazônia e a saúde pública.
Já a revista Piauí é hoje o maior reduto da vertente tradicional do jornalismo literário no Brasil, famosa por seus perfis políticos milimetricamente detalhados e reportagens de imersão de longo fôlego.
JAMIL TANNOUS
Jornalista e músico

























