
À noite, todos os gatos são…
Permitam-me discorrer, hoje, sobre um assunto banal em meio a outros mais relevantes escritos durante a semana nesta página. Gosto de relatar algumas histórias corriqueiras nas quais geralmente sou o protagonista, ou, pelo menos, acho que sou. Mas prometo que o ocorrido, ainda que possa parecer despretensioso, remete a uma reflexão final. Além disso, “causos” não deixam de ser uma manifestação literária.
Ocorreu há duas, talvez três semanas, numa madrugada de inverno, logo após mais uma noite cansativa de trabalho. Chego em casa e, não sei por qual motivo, estaciono o carro em frente à residência, em vez de guardá-lo na garagem. E, como de costume, lá estavam eles: dois olhinhos verdes, brilhantes, esperando por mim. Tenho uma gata de estimação e, quase sempre, ela cumpre o ritual da espera e dos cumprimentos de bom dia.
Desci do carro e me aproximei. Mimi permaneceu inerte, em vez de vir ao meu encontro e se deitar de barriga para cima, esperando minha carícia com os pés. Estranho, mas, se a montanha não vem até Maomé, Maomé vai à montanha. Cheguei mais perto e o miado parecia de desconfiança; os pelos cinzentos com listras pretas estavam eriçados, a pupila mais dilatada que o normal. Nesta primeira aproximação, ela me dá um drible e para, feito Garrincha em dias inspirados no Maracanã.
Parecia receosa. Tento uma nova aproximação, e ela se afasta um pouco mais e para novamente. Fiquei preocupado. Será que esta gata não está reconhecendo o próprio tutor? Será que está enxergando mal ou, quem sabe, já está sofrendo com alguma manifestação de senilidade felina? Mas ela não está tão velhinha assim. Pelos meus cálculos, está na meia-idade. Porém, talvez seja o caso de uma consulta veterinária, tadinha. Na última e terceira aproximação, Mimi lançou-se em uma corrida desenfreada, rumo desconhecido, feito um corisco cinza com listras negras.
Dane-se. Eu precisava descansar. O problema da gata resolvo depois! Abro o portão e apareceu a verdadeira Mimi: meiga, como sempre, miou manhosamente e deitou de barriga para cima, aguardando a tradicional carícia dos meus pés.
Ri de mim mesmo. Fui traído por um(a) sósia felina numa madrugada de inverno. Mas depois veio a preocupação: será que estou enxergando mal ou com sintomas precoces de senilidade? Acho que não, ainda estou na meia-idade e não vou gastar com consulta médica sem necessidade. Afinal, à noite, todos os gatos são pardos, ou melhor, neste caso, todos os gatos são cinzas!
Finalizo dizendo que, em determinadas situações, enxergamos apenas as supostas falhas alheias, e não as nossas próprias falhas concretas…
NANDO FREITAS
Funcionário público estadual

























