“Presidente Venceslau, 100 anos: a universidade pública como sonho possível e projeto de todos”, a Crônica da Semana

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Presidente Venceslau, 100 anos: a universidade pública como sonho possível e projeto de todos


Há cidades que chegam ao centenário sem muitas aspirações, apenas contando pontes, prédios, ruas abertas, lavouras vencidas, comércio erguido, estradas asfaltadas. Aqui não. Em Presidente Venceslau, o 2 de setembro de 2026 não pertence apenas ao calendário: é um espelho em que a cidade se reconhece pelo que construiu e pelo que ainda deseja ser.

Uma cidade, é necessário destacar, também se mede pelo que semeia em silêncio: pelas carteiras escolares ocupadas por crianças que ainda não sabem o tamanho do mundo; pelos cadernos encapados com cuidado; pelas escolas públicas que abrem portas onde antes havia apenas distância.

É desse chão que nasce esta crônica: da memória de uma cidade que formou gerações e do desejo de vê-la novamente no centro de uma grande causa educacional. Minha origem está na educação básica pública de Presidente Venceslau, recebida em escolas que ofereciam, com todas as limitações de seu tempo, algo decisivo: horizonte para quem ousava sonhar.

Venho de família humilde. Meu pai, carpinteiro, já falecido, e minha mãe, do lar, ensinaram-me, pelo exemplo, o valor do trabalho, da decência e da perseverança. Sinto muito orgulho dos meus pais, porque fizeram da simplicidade uma escola de dignidade.

Da educação básica pública, segui por caminhos em que estudar nunca foi gesto simples. A falta de recursos impôs pausas, espera e disciplina.

Ainda assim, com muito esforço e em cursos noturnos, concluí Letras, com licenciatura plena em Português e Inglês, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Presidente Venceslau (FAFIPREV), em 1985, e Direito, pela então Instituição Toledo de Ensino, hoje Centro Universitário Toledo, em Presidente Prudente, em 1989. Ambos cursos particulares.

Para cursar Direito, depois de um dia inteiro de trabalho, eu percorria cerca de 55 quilômetros entre Presidente Venceslau e Presidente Prudente. A estrada, noite após noite, não era apenas percurso: era a imagem concreta da distância que a educação ainda precisava vencer.

Aliei a formação acadêmica às profissões de radialista e jornalista profissional, conquistadas pelo exercício. Depois, na advocacia, encontrei outro modo de servir; na sequência, realizei o sonho de ser aprovado em dois concursos de magistratura, estadual e trabalhista, optando pela Magistratura do Trabalho.

A docência superior em Direito do Trabalho, exercida de 1999 a 2015, a especialização em Direito Civil e Direito Processual Civil e o mestrado em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP pertencem a esse mesmo caminho de estudo e trabalho. Depois da aposentadoria, continuo estudante: aprovado no processo seletivo de Doutorado em Educação da FCT-UNESP de Presidente Prudente, frequento, honrado, pela primeira vez, uma universidade pública.

Esse triunfo tardio não diminui o percurso; ao contrário, ilumina-o. Relembra que a educação, quando encontra continuidade, muda a geografia íntima de uma vida, podendo mudar também o destino coletivo de uma região.

Presidente Venceslau já conheceu dias de protagonismo no campo do ensino. Em 1958, a Lei Estadual nº 5.044 criou Delegacias de Ensino no interior paulista, entre elas as de Presidente Venceslau e Santo Anastácio, desmembradas da de Presidente Prudente.

Décadas depois, em 10 de junho de 1999, o Decreto Estadual nº 44.036, do então governador Mário Covas, reestruturou a Secretaria da Educação e criou a Diretoria de Ensino – Região de Santo Anastácio.

Com isso, Presidente Venceslau deixou de abrigar o centro administrativo regional que historicamente a vinculava ao ensino público paulista.

Esse dado não deve alimentar ressentimentos, mas reflexão: uma cidade centenária, com tradição escolar tão forte, não pode contentar-se em ser apenas lembrança de referência educacional.

A hora pede ousadia serena. Presidente Venceslau merece uma universidade pública, estadual ou federal. Pode ser, por exemplo, a Universidade Federal do Pontal do Paranapanema, com sede em nossa cidade.

Não se trata de vaidade municipalista nem de ufanismo local, mas de projeto regional, suprapartidário, capaz de reunir pessoas, instituições e forças políticas em torno de uma causa maior do que qualquer legenda.

Estamos situados em ponto estratégico do oeste paulista, na confluência de duas rodovias fundamentais: a Raposo Tavares, eixo que nos liga, de um lado, ao Mato Grosso do Sul e, de outro, à capital paulista; e a Rodovia Integração, que articula o Pontal do Paranapanema à Alta Paulista. Poucas localizações reúnem, com tanta clareza, vocação de passagem, encontro e irradiação.

Uma instituição pública de ensino superior em Presidente Venceslau serviria muito além dos limites do município. Alcançaria o oeste paulista, a Alta Paulista e todo o Pontal do Paranapanema; dialogaria com Paraná e Mato Grosso do Sul; atrairia estudantes, professores, pesquisadores, investimentos, cultura, tecnologia, inovação, extensão universitária e esperança.

Em uma das regiões mais pobres do Estado de São Paulo, esse projeto pode oxigenar mentes e economia, qualificar políticas públicas, fortalecer a formação de professores, estimular pesquisas aplicadas às necessidades locais e aproximar jovens do ensino superior público de qualidade.

Ao democratizar o acesso ao saber, combater a ignorância e produzir soluções para desafios concretos da sociedade, uma universidade pública irradia luz e prosperidade. Onde ela se instala, a juventude ganha caminhos, a economia ganha fôlego e a cultura ganha casa.

A presença de estudantes, docentes e pesquisadores movimenta moradia, alimentação, transporte e serviços; fortalece o comércio; estimula novos negócios; gera empregos e renda. Também ajuda a conter a evasão de jovens por falta de oportunidade e eleva o nível de formação profissional da região.

Já mantive contatos com autoridades para difundir essa ideia, por considerá-la justa, necessária e possível. No Pontal do Paranapanema, uma nova casa pública do saber significaria mais do que prédios, salas e cursos: afirmaria que o extremo oeste paulista também tem direito à ciência, à cultura, à tecnologia e ao desenvolvimento. É disso que se trata.

Lutar por uma universidade pública significa dizer aos filhos das famílias humildes que não precisariam escolher entre trabalhar cedo e sonhar pequeno, nem permanecer pelo caminho quando sonham alto.

É preciso enfrentar, ao menos em parte, a distância histórica que afastou tantos jovens pobres da universidade de qualidade. Quando a instituição pública se instala perto de quem mais precisa dela, o direito ao conhecimento deixa de ser promessa distante e ganha endereço acessível.

Hoje, políticas como cotas sociais e raciais, ingresso pelo Enem/Sisu e ações de permanência estudantil ampliam o acesso de estudantes da classe trabalhadora. Ainda assim, a proximidade geográfica continua decisiva: quando a universidade se aproxima do povo, o povo se aproxima da universidade.

Por isso, essa luta deve ser um projeto suprapartidário.

Não pertence a governo, partido ou grupo; pertence à cidade e à região. Exige convergência, persistência e maturidade pública. Educação não é bandeira de ocasião: é alicerce de futuro compartilhado.

Sou venceslauense e amo minha terra. Vivi fora dela por algum tempo, mas retornei à cidade que me viu menino, estudante, trabalhador e profissional. Voltar às origens, aqui, não é apenas agradecer; é reivindicar que outras gerações encontrem mais perto aquilo que tantos precisaram buscar longe.

Esta crônica apresenta-se aqui em versão concentrada. Ampliada – inclusive no tema, pois abrangerá homenagem a uma professora querida – integra a coletânea que a AVL – Academia Venceslauense de Letras lança em breve, em homenagem aos 100 anos de vida e história de Presidente Venceslau.

No centenário de Presidente Venceslau, a memória não precisa erguer estátuas de bronze. Pode transformar-se em sala de aula pública, em oportunidade próxima, em diploma alcançado sem que a distância continue sendo prova de resistência. Pode convocar a cidade inteira a converter gratidão em projeto.

Que Presidente Venceslau, aos 100 anos, celebre seu passado sem se aprisionar nele. Que olhe para suas escolas, suas ruas e sua gente trabalhadora, reconhecendo a obra que ainda cabe realizar: uma universidade pública capaz de formar gerações, produzir conhecimento e fazer do Pontal do Paranapanema não uma margem esquecida, mas um centro vivo de desenvolvimento humano, justiça social e esperança.

JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL

Respostas de 2

  1. Adorei essa reflexão! Perfeita! “a memória não precisa erguer estátuas de bronze. Pode transformar-se em sala de aula pública, em oportunidade próxima, em diploma alcançado sem que a distância continue sendo prova de resistência.” Como sempre o cronista impressiona por saber traduzir em palavras sentimentos.

    1. Obrigado, uma vez mais, pelo prestígio que empresta às crônicas e ao cronista com a leitura. Suas considerações são um estímulo. Esta luta pela Universidade do Pontal em Presidente Venceslau precisa de todo o apoio possível para que se viabilize.

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