Crônica do leitor José Cláudio Oliveira

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Rosa e o Relógio da Lua
Uma ficção para inspirar


Havia, no coração de uma floresta antiga, uma vila tão pequena que não aparecia em nenhum mapa. Sobre ela, existia uma história que jamais havia sido contada.

Os moradores diziam que o lugar era protegido por uma rosa azul, plantada muitos séculos antes por uma fada viajante. A Rosa da Aurora, como era chamada, florescia somente sob a luz da lua. Quando suas pétalas brilhavam, nenhum mal ousava entrar na vila.

Entre os habitantes vivia Elara, uma jovem fada curiosa, de cabelos negros e olhos cintilantes como poças d’água depois da chuva. Embora ainda fosse muito jovem, sonhava em se tornar guardiã da rosa azul — missão que, havia muitos anos, pertencia ao velho Thalion, um homem de barba longa e olhar cansado, conhecedor de todos os segredos da floresta.

Certa noite, porém, algo estranho aconteceu.
A lua, sempre tão redonda e serena, surgiu no céu com uma sombra irregular, como se alguém tivesse arrancado um pedaço dela. Naquele mesmo instante, a Rosa da Aurora fechou suas pétalas, tremendo como um coração assustado.

Alarmado, Thalion convocou todos os moradores da vila.
— A Rosa está perdendo sua luz — disse ele, segurando delicadamente a flor entre as mãos. — Isso só pode significar que o Relógio da Lua foi interrompido.

A vila inteira suspirou, tomada pelo medo.
O Relógio da Lua era um artefato lendário que, segundo antigas histórias, mantinha a harmonia entre o céu e a Terra. Se deixasse de funcionar, as noites se tornariam instáveis e as criaturas sombrias da floresta despertariam de seu sono profundo.

Elara, então, deu um passo à frente.
— Deixe-me ir até o Relógio, Thalion — pediu, com o coração batendo tão depressa quanto o vento. — Posso descobrir o que aconteceu.

O velho guardião a observou com preocupação. Ao perceber, porém, a determinação da jovem, concordou.
— Leve isto — disse ele, entregando-lhe a última pétala da Rosa da Aurora. — Ela lhe mostrará o caminho quando a escuridão se tornar grande demais.

E assim Elara partiu.
Naquela noite, a floresta parecia completamente diferente. Os troncos das árvores se moviam como se respirassem, enquanto pequenos pontos de luz azulada flutuavam entre os galhos, guiando seus passos.

Elara caminhou durante horas, até chegar a uma clareira. Ali havia uma torre de pedra, alta e estreita, que parecia tocar o céu. No topo, suspenso por correntes de prata, encontrava-se o Relógio da Lua: um enorme disco luminoso que girava lentamente — ou que deveria estar girando.

Mas o Relógio estava parado.
Ao lado dele, sentado sobre uma rocha, havia um garoto aparentemente da mesma idade de Elara, com cabelos brancos como a geada.

— Foi você quem fez isso? — perguntou a jovem, apertando a pétala luminosa entre os dedos.

O garoto virou-se lentamente, revelando seus olhos prateados.
— Eu só queria ter mais tempo de lua cheia — respondeu. — Quando faço o Relógio girar para trás, a noite fica mais longa. Não queria machucar ninguém.

Elara aproximou-se com cautela.
— Mas a Rosa está morrendo, e a floresta está se tornando perigosa.

O garoto abaixou a cabeça, envergonhado.
— Meu nome é Lunares. Sou filho da Senhora da Lua. Ela me proibiu de tocar no Relógio, mas eu queria que as noites fossem eternas. Não imaginava que isso afetaria o mundo de vocês.

Ao perceber que ele realmente não tivera a intenção de causar o mal, Elara estendeu-lhe a pétala azul.
— Então me ajude a consertá-lo.

Lunares tocou a pétala, que imediatamente brilhou com grande intensidade. Sua luz refletiu-se no disco metálico do Relógio. Em seguida, o garoto ergueu as mãos, e uma suave onda de luz prateada envolveu todo o mecanismo.

O Relógio voltou a girar — primeiro devagar e, depois, com a harmonia perfeita de um coração restaurado.

No céu, a lua recuperou sua forma. Elara sorriu.
— Obrigada!

Lunares retribuiu o sorriso.
— Eu é que agradeço por me ensinar que até a luz mais bela pode ferir quando é usada sem cuidado.

O garoto subiu por um feixe de luz e desapareceu entre as estrelas.
Quando Elara retornou à vila, a Rosa da Aurora estava novamente aberta e brilhava como nunca. Os moradores celebraram sua coragem, enquanto Thalion anunciou:

— A partir de hoje, Elara será a nova Guardiã da Rosa!
E assim, sob o céu restaurado e a luz gentil da lua, a jovem tornou-se uma heroína — não por sua força, mas por sua coragem e compaixão.

A Rosa da Aurora continuou a florescer, lembrando a todos que a verdadeira luz deve sempre caminhar ao lado da responsabilidade.

JOSÉ CLÁUDIO OLIVEIRA GARCIA
Escritor, servidor público e presidente do Conselho Municipal de Cultura de Santo Anastácio

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