“Museu fechado, cidade sem espelho”, na Crônica da Semana

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Museu fechado, cidade sem espelho


Há lugares que guardam a alma de uma cidade. Não fazem barulho, não disputam palanque, não pedem passagem. Permanecem ali, silenciosos, à espera de olhos que saibam ver e de ouvidos que saibam escutar.

Um museu é um desses lugares. Suas paredes não cercam apenas objetos; abrigam passos, vozes, sustos, esperanças, perdas, conquistas, fotografias amareladas, papéis frágeis, instrumentos esquecidos e jornais que ainda respiram o tempo em que foram impressos.

Talvez por isso seja tão doloroso encontrar fechadas as portas do Museu Histórico e Cultural “Juliano Monteiro de Almeida”, no antigo prédio da Estação Ferroviária. Mais grave ainda é o fato de isso ocorrer justamente no ano em que Presidente Venceslau vive o seu centenário.

Cem anos deveriam abrir caminhos para a memória, não a trancar. Cem anos deveriam chamar alunos, professores, pesquisadores, moradores antigos, recém-chegados e visitantes para dentro de sua própria história. Mas, quando encontra portas cerradas, a história parece recuar para a sombra.

Fui até lá procurando antigas edições do Jornal Integração, registros de um tempo em que as páginas anotavam a vida da cidade em suas urgências, esperanças e contradições. Buscava matérias que pudessem alimentar novas crônicas. Em parte, encontrei o que precisava no próprio Integração. Sabia, porém, que Percy Rubens de Mello e João Marques de Oliveira, o “Joãozinho da Casa da Lavoura”, tinham reunido e encadernado exemplares.

Esses volumes, certamente, pertencem ao território da memória pública e devem estar no museu. Entretanto, não pude vê-los. Disseram-me que o museu está fechado por falta de “funcionário”. Depois, a área de cultura do município confirmou que o problema é mesmo a falta de servidor e informou que a visita ainda é possível, desde que previamente agendada. A informação tenta suavizar o problema, mas não o resolve.

Visita pré-agendada pode servir para uma exceção; não substitui a vida cotidiana de um museu. Museu não é caixa de lembranças guardada no alto do armário, aberta apenas quando alguém insiste. Museu precisa de presença, ordem, limpeza, catalogação, cuidado diário e acolhimento. Precisa de mãos que conservem e de vozes que expliquem.

Essa ausência de cuidado contrasta com a longa história da luta por esse museu. A semente foi lançada há muito tempo. Em 13 de março de 1983, na edição nº 226 do Jornal Integração, publiquei o artigo “Museu para que?”, escrito pela professora doutora Maria de Lourdes Ferreira Lins, então presidente da Fundação Museu Histórico Municipal de Presidente Prudente e professora de História da Unesp. O texto, solicitado pelo professor Armando Pereira Antonio, também da Unesp, era um apelo à criação de um museu e arquivo municipal que preservasse a memória histórica local e regional de Presidente Venceslau.

Não era um gesto nostálgico, preso à poeira do passado. Era um convite à responsabilidade. A professora falava de uma instituição moderna, atuante e viva, capaz de revelar, por meio de documentos, coleções e objetos, a ação transformadora do homem em seu tempo. Queria menos a fabricação de mitos e mais a preservação das experiências vividas. Queria que o passado iluminasse o presente, para que a cidade pudesse pensar melhor o seu futuro.

Na edição seguinte, em 20 de março de 1983, o Integração noticiou que o museu poderia ser instalado. Ali a ideia começava a ganhar corpo.
Na mesma edição, o registro de crianças que visitavam o jornal. As educadoras que as acompanhavam diziam que a escola precisava integrar a criança à comunidade. A cena parece pequena, mas contém uma verdade imensa: cidade se aprende também fora da sala de aula. Aprende-se no jornal, na praça, na estação, no museu. Aprende-se quando o aluno descobre que a história não mora apenas nos livros didáticos; mora também no lugar onde ele vive.

A educação, quando se abre à comunidade, também se presta à formação do pensamento crítico. Ensina o aluno a perguntar de onde veio, por que as coisas mudaram, quem ficou de fora dos registros oficiais e que responsabilidades o presente assume diante do passado. Um museu aberto ajuda a formar esse olhar.

Em 30 de outubro de 1983, a edição nº 258 do Jornal Integração trouxe novo sinal de esperança: Presidente Venceslau poderia ter seu Museu Histórico. O antigo armazém da Fepasa surgia como possibilidade de abrigo, e João Marques de Oliveira aparecia como colaborador precioso. Depois vieram leis, esforços, mudanças de endereço, desativações, reativações, nomes que se somaram à causa. Entre eles, Juliano Monteiro de Almeida, justamente homenageado na denominação do museu.

A caminhada resultaria, anos depois, em reconhecimento legal. A Lei Municipal nº 1.895, de 4 de setembro de 1995, autorizou a criação e instalação do Museu Histórico e Cultural de Presidente Venceslau. A Lei nº 2.180, de 30 de novembro de 2000, deu-lhe o nome de “Juliano Monteiro”.

Anos depois, Inocêncio Erbella recorreria ao museu como uma de suas fontes em “Rabiscos Históricos de Presidente Venceslau” (Presidente Venceslau: Artes Gráficas Pedriali, 2006, 558 p.) e em “Presidente Venceslau: Nossa Terra, Nossa Gente” (Artes Gráficas Pedriali, 2016, 2. ed., rev. e ampl., 684 p.). Quando um museu serve à pesquisa, deixa de ser apenas acervo: torna-se raiz escrita, prova, testemunho, chão firme para quem procura compreender a cidade.

Em 1º de junho de 2023, o G1 registrou a reativação do museu. A reativação mostrou a riqueza e a diversidade do acervo: fósseis pré-históricos, moedas, cédulas antigas, capacetes militares, ferros antigos, louças, máquinas de escrever e calcular, caixa registradora, aparelho de consultório odontológico, máquina de costura, objetos de gráfica, prensa, quadros, instrumentos musicais, fotografias antigas, placas de identificação de locais públicos e outras peças. A reportagem também informou que havia objetos ainda por catalogar, sinal claro de que o museu precisava – e precisa! – de trabalho continuado.

Um fóssil fora do olhar público volta a ser apenas pedra. Uma fotografia sem identificação perde rostos. Um jornal guardado e inacessível cala a notícia que poderia explicar uma época. Uma máquina antiga sem legenda vira ferro mudo. Catalogação, limpeza, conservação e abertura regular não são detalhes burocráticos: são a respiração do museu. Sem isso, o acervo adoece e a memória se desorganiza.

É preciso que as escolas voltem a entrar ali; que crianças façam perguntas diante das fotografias antigas; que professores encontrem no acervo motivo para aulas mais vivas; que venceslauenses reconheçam nomes, ruas, ferramentas, jornais, festas, lutas e personagens; que visitantes de fora percebam que Presidente Venceslau não é apenas ponto no mapa, mas lugar com memória, experiência e narrativa. Uma cidade que mostra sua história também se apresenta com dignidade.

Por isso, providências precisam ser tomadas. Não basta haver prédio. Não basta haver peças. Não basta haver lembrança de inauguração ou notícia de reativação. É necessário garantir funcionamento regular, servidor ou equipe responsável, organização técnica, política de preservação, atendimento ao público, estímulo às visitas escolares e condições para pesquisa. A memória não se conserva sozinha. Ela pede cuidado. E quando o poder público aceita recebê-la, assume também o dever de protegê-la.

Presidente Venceslau chega aos cem anos. Que não chegue de costas para sua própria história. Que o antigo prédio da estação, por onde antes passavam trilhos, cargas, viajantes e despedidas, volte a ser passagem, agora para o conhecimento, para a memória, para o encontro entre gerações. O museu não pode permanecer fechado. Uma cidade sem museu aberto é uma cidade sem espelho. E nenhuma cidade atravessa dignamente o tempo quando deixa de olhar para si mesma.

JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL

Uma resposta

  1. Como sempre, preciso como um cirurgião meu amigo Zé Roberto .
    Como filho da terra levei um amigo visitar o museu na última vez que em Venceslau estive e demos eu e meu amigo a quem queria mostrar a “minha cidade” com a cara na porta .
    Triste
    Um povo que não conhece o seu passado, não interpreta o presente e não torna-se participe do seu futuro – isso é Museu !!!! Ora bolas !!!

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