“CÓPIAS MAL FEITAS”
Duas obras me inspiraram a escrever este texto. A primeira é uma música de Alceu Valença que, inclusive, lhe dá o título. A segunda é um livro de Luís da Câmara Cascudo, um dos maiores estudiosos do folclore brasileiro.
Creio que estamos perdendo muito da nossa identidade nacional. O primeiro exemplo está no futebol, cada vez mais truculento e tático. Sim, aquele esporte inventado pelos ingleses, mas que adaptamos ao nosso jeito de jogar e com o qual conquistávamos o mundo graças à nossa ginga e malemolência.
Na ânsia de vencer, contratou-se um técnico italiano, pois, há tempos, foi incutida na mentalidade futebolística a ideia de que devemos copiar o pragmático jogo europeu. Não tem dado certo para nós, mas, para os futebolistas do Velho Mundo, sim.
O outro exemplo é musical.
Nossa tradicional música de raiz, em todos os gêneros, tem sofrido adaptações e recebido arranjos cada vez mais voltados à demanda mercadológica, no afã de produzir sucessos instantâneos e efêmeros, ao contrário das canções atemporais de outrora.
Perdeu-se qualidade nas letras e na diversidade dos temas. Ganharam espaço as batidas repetitivas e as “letras chiclete”, quase sempre restritas ao álcool, à ostentação e à sexualidade. Não que eu seja um falso moralista, mas esses assuntos podem ser tratados de maneira muito mais elaborada. Além disso, existe uma infinidade de outros temas dignos de serem musicados. Está tudo muito igual, previsível, raso e pobre. E, com o advento da Inteligência Artificial, receio que a tendência seja piorar.
E o nosso folclore? Aí entra Câmara Cascudo. Ao ler sua obra, relembrei o quanto o nosso imaginário popular é rico, embora esteja cada vez mais desprezado e esquecido. São histórias e lendas de um Brasil magnífico, gigantesco e miscigenado que, infelizmente, vêm se perdendo de geração em geração. Desprezamos esse Brasil folclórico cada vez que comemoramos o Halloween ou perpetuamos a figura de um Papai Noel em natais tropicais artificialmente cobertos por neve de isopor.
É isso. A cada “cópia mal feita”, tentamos nos tornar mais parecidos com os outros, num processo de descaracterização que mais se assemelha a um crime de falsidade ideológica.
NANDO FREITAS
Funcionário Público estadual

























