
Minha esposa e eu passamos uma semana excepcional com nossos três netos: casa cheia, horários reinventados, risadas fora de hora e aquela alegria que só a infância, quando ocupa a sala inteira, consegue produzir.
Somos avós de cinco – três meninos e duas meninas –, privilégio que o tempo nos concedeu em forma de movimento, perguntas e abraços. Por isso, registro com igual carinho que já havíamos vivido dias adoráveis também com nossas duas outras netas, filhas de nosso filho e de nossa nora.
Naquela ocasião, fomos pessoalmente a uma lancheria e depois a uma sorveteria. Até havia pedido eletrônico, e nós o utilizamos, mas com outra tranquilidade: o equipamento estava sobre a mesa, sem pressa, ao alcance da conversa.
Desta vez, no sábado, levamos os netos ao shopping para almoçar e ir ao cinema. Na praça de alimentação, escolhemos um restaurante e veio a surpresa: não havia caixas humanos. Apenas telas, imagens, opções e aquela sensação de que, se você hesita por alguns segundos, já está atrasando o futuro.
Eu, que me considero razoavelmente familiarizado com tecnologia – inclusive com a inteligência artificial que me auxilia neste texto –, senti dificuldades. Meu neto mais velho, impaciente, tomou conta da operação. Esqueceu, naturalmente, o CPF da Nota Fiscal Paulista. Para ele, isso não tem relevância. A juventude ainda desconhece essas pequenas consolações fiscais da vida adulta.
Enquanto almoçávamos, pensei em parentes e amigos que poderiam encontrar ali um obstáculo real. Alguém poderia simplesmente não conseguir se alimentar naquele lugar, não por falta de dinheiro, mas por falta de mediação humana.
Depois, no cinema, havia apenas um caixa com atendimento preferencial.
Com meus 64 anos bem vividos, fui até ele, enquanto os netos seguiam para os totens. A atendente sugeriu que eu aceitasse a ajuda deles, pois seu caixa estaria travado. Talvez estivesse. Mas desconfiei.
Ela era a única presença humana que restava ali e talvez não percebesse que, ao me devolver para a máquina, colaborava involuntariamente com a lógica que um dia poderá dispensar também o seu posto.
Para comprar pipoca, água e refrigerantes, também havia totens. Fiz questão de ir à fila preferencial e ser atendido por pessoas. Talvez fosse teimosia; talvez apenas a necessidade de confirmar que ainda existia alguém do outro lado do balcão, capaz de olhar, ouvir e explicar.
Não sou inimigo da tecnologia. Resistia até ao sistema automático de pedágios e estacionamentos, temendo a perda de empregos. Depois percebi que outros trabalhos surgiam e que certas funções, exercidas sob sol, chuva e fumaça, podiam ser substituídas por tarefas menos penosas. Acabei me rendendo, também porque já não suportava filas.
À noite, os netos quiseram lanche. Recusei-me, de início, a baixar o mais famoso aplicativo de delivery. Pedi o nome da hamburgueria, tentei telefonar várias vezes e ninguém atendeu. Inexplicável para quem vende comida a pessoas com fome.
Instalei o aplicativo. Baixá-lo foi fácil; escolher lanches, cadastrar pagamentos e vencer mensagens cifradas foi outra história. O neto mais velho queria tomar-me o celular. Eu dizia que queria aprender. Quando os cartões não funcionaram, ele perguntou: “Pode ser por Pix?” Pôde. Ele assumiu, eu acompanhei, e paguei copiando o código.
O aplicativo prometera 40% de desconto no primeiro pedido. Meu neto vibrou: “Vô, você vai pagar quase a metade!”. O sistema, porém, aplicou o abatimento a apenas um lanche. No mundo digital, até a esperança vem com regulamento algorítmico.
No fim, os lanches chegaram, os netos aprovaram e a semana continuou excepcional. Talvez por isso a reflexão tenha ficado. A tecnologia é importantíssima: facilita, aproxima, organiza e economiza tempo. Mas não pode ser construída como cidade sem rampas. Deve abrir portas, não fechá-las; ser ponte, não peneira. Progresso que deixa gente para trás pode até ser eficiente. Mas ainda não aprendeu a ser civilizado.
JOSÉ ROBERTO DANTAS OLIVA
O autor é Doutorando em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Mestre em Direito das Relações Sociais pela PUC-SP, Advogado Trabalhista, Juiz Titular de Vara do Trabalho aposentado, Professor, Radialista, Jornalista e titular da cadeira nº 18 da Associação Venceslauense de Letras – AVL

























Respostas de 8
Excelente reflexão, Oliva!
Parabéns!
Parabéns, Vovô Coruja !!!
Sempre presente com os seus netos.
Abraço meu amigo !
Excelente texto!
Críticas oportunas e construtivas!
A marca da dialeticidade, inerente à vida
PREZADO, OLIVA,
MUITO BOA SUA CRÔNICA. O LACNHE, O CINEMA, OS TOTENS SÃO MUITO BONS. MAS O MELHOR AINDA É A RELAÇÃO HUMANA, E COM OS NETOS, NEM SE FALA. PARABÉNS PELA PARTICIPAÇÃO.
É isso aí, caro colega. Já escrevi algo sobre isso, lembrando os famosos qr code, inclusive de restaurantes, que dispensam os antigos cardápios. E quem não anda com celular? Os coitados dos idosos…
E os humanos vão sumindo… Atendente humano hoje é luxo.
Muito bom! Parabéns, Oliva!
Qual será o impacto dessa ausência de contato humano (que aquece e desafia) nas gerações futuras? Menos tolerância com o outro?
Grato a todas e todos pelas palavras de incentivo. Terça-feira que vem tem mais! 🙏🌹