
Interferência da imprensa nas eleições
O processo político brasileiro registra exemplos que marcaram e ainda marcam nossa jovem democracia pós-64, sobretudo quando se trata do papel da imprensa no processo eleitoral. Isso ocorre porque a interferência da imprensa nas eleições envolve o debate sobre o peso da cobertura jornalística na formação da opinião pública, a busca por imparcialidade e os riscos à segurança dos profissionais de comunicação.
Na formação de agenda (agenda-setting), os meios de comunicação definem quais temas, candidatos e debates ganham visibilidade, o que pode direcionar a atenção do eleitorado para certas pautas. Sobre os vieses político-ideológicos, analistas e estudos apontam que, historicamente, grandes veículos podem demonstrar preferência por determinadas candidaturas em detrimento de outras.
Um exemplo clássico ocorreu nas eleições presidenciais de 1989 — a primeira votação direta após o governo militar. Com Lula e Collor disputando o segundo turno, o país assistiu àquela que é considerada uma das maiores manipulações protagonizadas pela emissora que dominava a audiência, a Rede Globo. A interferência contra Lula é um dos episódios mais célebres e controversos da história da imprensa e da política brasileira.
No afã de eleger seu candidato de preferência para dirigir o país, a emissora da família Marinho editou o debate final em favor de Collor para exibição no Jornal Nacional. Deu-se maior espaço ao candidato do PRN, contrariando a isonomia de tempo em relação ao petista.
Não bastasse isso, na reta final daquela eleição, a mídia deu ampla cobertura a outro episódio polêmico de grande repercussão. O empresário Abílio Diniz fora sequestrado em dezembro de 1989. No dia do segundo turno (17 de dezembro), a polícia libertou o empresário e apresentou cartazes e materiais do PT supostamente encontrados com os sequestradores. A massiva cobertura televisiva e impressa associando o crime ao partido de Lula — associação que posteriormente se provou falsa — é apontada por cientistas políticos como o golpe final que consolidou a vitória de Fernando Collor.
Mais recentemente, a mesma Globo fez uma espécie de “parceria” com a força-tarefa da Lava Jato nas eleições de 2018. De forma seletiva, a emissora exibiu áudios e matérias que buscavam incriminar Lula sob as denúncias de ser o dono de um sítio em Atibaia e de um tríplex no Guarujá, imóveis que seriam oriundos de corrupção.
Lula ficou preso por 580 dias na sede da Polícia Federal, em Curitiba. A prisão o retirou da disputa presidencial de 2018, eleição que levou Jair Bolsonaro ao poder. Lula deixou a prisão em 2019 e, posteriormente, em 2021, o STF (Supremo Tribunal Federal) anulou as condenações. A Suprema Corte entendeu que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência legal para julgar os casos, pois os fatos não tinham relação direta com os desvios na Petrobras. Além disso — como mostrou a Vaza Jato —, ficou evidenciada a parcialidade do juízo de Curitiba em conluio com os procuradores da República no Paraná. Posteriormente, Sérgio Moro, o juiz que condenou Lula, tornou-se ministro da Justiça do governo Bolsonaro.
Nas eleições recentes, o Brasil assiste novamente a uma rede de vazamentos para a imprensa sobre dois casos que repercutem em manchetes, de modo a direcionar a opinião do eleitorado: os casos do Banco Master e das fraudes no INSS. No cenário do Banco Master, apontado como uma grande fraude bancária, além de agentes públicos, figuram entre os possíveis envolvidos ministros do STF.
Resta saber como a imprensa se comportará daqui para frente, visto que o país vive um período eleitoral fortemente polarizado. O detalhe diferencial, contudo, é que a Globo perdeu o monopólio da preferência absoluta do eleitorado. Com a ascensão da internet, surgiram redes sociais, portais informativos e mídias independentes que descentralizaram o fluxo de informação.
JAMIL TANNOUS
Jornalista e Músico

























