DON LORENZO, UMA LUZ NO SILÊNCIO DAS SOMBRAS
…é junto dos “bão” que a gente fica “mió”_Guimarães Rosa
Num dia desses, em um sábado qualquer, no morno prenúncio do verão que se aproxima neste 2025, tive a oportunidade reencontrar um amigo de longínquas eras -desde o período em que dividíamos o quintal, a “infantolescência”, o pouco que tínhamos … e tudo parecia muito-, vínculo esse que, ali iniciado, por conta de tempo e espaço, se caracterizou pela intermitência não nos permitindo maior e melhor assiduidade; mas, como foi gratificante aquele momento e o que dele repercutiu!
Encontros e reencontros são propícios e profícuos para reflexões, que, às vezes, nos ensejamos vivenciar, sendo aí a oportunidade para alcançarmos novos entendimentos sobre o que é a vida, a nossa e dos semelhantes que permeiam essa caixinha de contradições que controla e define esse possível mundo controverso no qual nos é permitido habitar.
Dessas ocasiões, saímos devedores, pois adquirimos e levamos muito de aprendizado, deixando insuficientes contrapartidas que equalizem o cenário, assim como o é em relação à natureza que, a todo momento nos lança lições que o ser humano, imperfeito que é, parece ou não quer observar, infelizmente; ingratos que somos.
Circunstâncias como aquela vivenciada, renovam nossas esperanças e crenças de que o Supremo coloca essas pessoas em nossos caminhos, não só para orientação, mas também para nos lembrar de que não estamos sozinhos nesse mundo em contínua metamorfose, ambulante, como dizia aquele poeta, Raul Seixas, o maluco beleza.
Anônimo, o quanto às circunstâncias lhe permitiram, o personagem que destaco aqui, posso afirmar, tão anônimo quanto competente, alcançou singular brilho e sucesso, no contexto das sombras, transitando em várias esferas e em todas contribuindo com a sua luz.
Pessoas do tipo, dotados de perspectivas luminares direcionadas à determinação e ao senso da excelência, protagonistas das sombras que são, eles sobrevivem tais quais uma renitente fênix, carregando, na conjuntura delas, um considerável e visível poder, muitas vezes, necessariamente, imune à tentação das efêmeras e compreensíveis vaidades inerentes ao ser humano; aprenderam jogar o jogo das contradições mundanas, sendo uma das suas características o hábito de colocar o chapéu onde e quando possam alcançar e isso tem se mostrado assertivo na jornada por aqui.
Condicionado a esse posicionamento, são sempre pautados no otimismo realista, e nessa direção, sem a vitimização tão comum nos dias atuais, já uma epidemia que, quase sempre, se revela uma muleta de justificativas para os incapazes, eles vão levando, leve, suas empreitadas e assim obtendo respostas às suas expectativas.
Às vezes, sem titulação acadêmica, ditam cátedra com uma naturalidade espantosa como se tivessem doutorado em determinado assunto, onde se fizeram mestres pela vivência à campo e não em bancos escolares; uma dádiva inexplicável.
No que se refere a quem me refiro, restrito no perfil de amigos que coleciona, valoriza-os, é hábil em atrair, sem manipulação, faz do bem o seu propósito e não mede esforços no processo para alcançar os objetivos à que se encarrega; não abandona parceiros, procedimento tão comum quanto reprovável no escopo humano, onde, exemplos falam e não faltam para ilustrar isso.
Quando expõe suas palavras elas são maduras e exalam sabedoria, é sempre conciliador, porém, implacável adversário quando necessário. Sobrevivendo, com alguns arranhões, claro, as cicatrizes que o tempo se encarregou de esculpir em sua vida não o atemorizam, servem para lembrar e orientá-lo em eventuais contendas a que se disponibiliza.
Soube estabelecer sua networking como poucos, e nela transitar com profundidade e sabedoria. Não é do tipo que marca gol em treino e depois se perde no jogo de decisões, sabe seu lugar na área, bem como o momento de chutar à gol; o que faz com precisão cirúrgica, que é o que importa. Amigos nas celebrações, mas, também, nas urgências e emergências; para as quais está sempre afável e disponível em eventuais demandas, às vezes parecendo impassível, mas sempre busca a melhor solução, no que tem uma certeira intuição.
Agradável, adaptável, performático sem dissimulação, carrega uma memória impar que caracteriza esses tipos de personagens, lembram de fatos e minúcias que encantam quem com eles se relaciona; são um porto seguro para aconselhamento, todos nós sempre temos alguns em nosso meio, é só olhar ao redor. Decepções, claro, há de ter conhecido, e eu sei de algumas, mas não ao ponto de levá-lo ao limite da frustração, haja vista que isso parece não abalar suas convicções, pelo menos não aparenta, tal a desenvoltura com que conduz a vida partilhada que faz questão de viver.
O aparente alheamento, pela sua proposital inconstância nas redes sociais, não encontra ressonância no que de fato acontece, visto que a energia da sua mente frenética é estímulo para novos desafios, nos quais se desincumbe com a disposição e comprometimento costumeiro.
Para mim, representa a ressignificação do termo, muitas vezes desconsiderado, pois, assim como ele, são as pessoas do tipo, que operam no silêncio produtivo e que, despercebidos aos menos atentos, trazem luz à tona para muitos ostensivos cegos presunçosos que se julgam maiores do que a sua real importância.
Converge dessa narrativa, que seres desse calibre e modus vivendi sabem da sua importância e, na vida, esse carrossel de coincidências e consequências, é um liquidificador em operação permanente que, juntando corpos, almas e mentes, se encarrega de fluí-los homogeneizados.
Permite-se extrair que, sobrenatural, invisível, mas perceptível, há de se constatar que agir nas sombras muitas vezes não corresponde ao estigma a que o termo nos remete, uma vez que talvez, antes de nos tornarmos luz, tenhamos sido sombra.
No caso do anônimo retratado que essas linhas inspiram, os traços de aptidões talvez seja herança do pai, hábil craque no carteado, em cujo jogo se faz imperioso a vivacidade, reflexos prontos, intuição e mais, imprescindíveis para quem ao jogo da vida se lança; composição ao que se soma a gene de sua mãe, sábia, portadora de silenciosa serenidade e bondade que não pede reconhecimento.
SALVE! VIDA LONGA A “DON LORENZO!”
Lourival Magalhães
Escreve periodicamente no Blog do Toninho
Vencescredi









